Hoje a melhor amiga de minha filha foi embora. Foi morar longe. A menina que nos últimos cinco anos vi transitar na minha casa. Crescer junto com minha filha. Dividir segredos. Embirrar pra cinco minutos depois voltar e ser de novo a melhor amiga. São assim as melhores amigas. Cheias de idas e vindas.
Tentei consolar minha filha que chorava copiosamente. Ela pediu para que tão somente a abraçasse. Depois me pediu para deixá-la ir ao condomínio e caminhar nos últimos lugares por onde a amiga havia passado. Quem sabe um cheiro, recordar um momento especial juntas. Lembrar a gargalhada e a voz da amiga ainda tão forte na memória do coração.
Queria poder fazer alguma coisa que lhe amenizasse a dor. Um sorvete, um filme, uma comidinha especial. Mas parece que não há nada que possa ser feito quando existe a dor da ausência. Nenhum doce preenche este vazio. Só o tempo é capaz de promover a resiliência em nosso coração. Sei que outras melhores amigas virão e partirão. Outras dores. Outras lágrimas nos olhos e uma saudade que de tão apertada dói.
O tempo entre uma coisa é outra é feita de buscas. Os rastros, as cartinhas de amizade eterna, a paixão pelo mesmo garoto. Os convites de aniversário. As fotos dos pés e mãos juntos. A pose de mulher fatal. Os recadinhos no Orkut. A troca de roupas. Pequenas coisas que só duas melhores amigas podem compartilhar.
Talvez a Internet ajude amenizar a dor e a distância até que os dias coloquem mansamente as coisas em seu devido lugar. Mas as cartinhas e as fotos? Ah! essas ficarão muito tempo dentro da caixinha das melhores lembranças. Até o dia que alguém as descubra e pergunte quem é a outra menina da foto. Por onde ela anda. Ai o coração se encherá de novo de uma saudade imensa.
Dia desses descobri, ao conversar virtualmente com a filha da minha melhor amiga de juventude, que ela ainda guardava todas as minhas cartas. Eu fui a amiga que partiu. Andei por muitos lugares, troquei de casa, de cidade, de trabalho, de faculdade, de amor. Passaram-se 20 anos. Mas o tempo deixa de existir quando permitimos fluírem as boas lembranças do nosso coração. E a melhor amiga continua lá, intacta, única, atemporal. E juntas estamos de novo de trança no cabelo, sentadas debaixo de uma árvore, em frente à Igreja Matriz, escrevendo em nosso caderno algo que só nós sabemos. E que não posso revelar nem agora. Segredo de melhor amiga também é para sempre.


4 comentários:
Oportuno pois nesse findi do feriado veio passar comigo um dos últimos amigos de tempos de piá. Pensando bem, o último, os outros sumiram e não tentaram me achar. Eu tentei e nada...
O bom é que não importa o tempo que passou a conversa continua como se fosse ontem, sem silêncios de não ter o que dizer...
Ivens,
Poético. Lindo seu comentário. BJ
Lindo e verdadeiro. Dolorosa e desafiadoramente verdadeiro.
Lindo, Normíssima!
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