Norma Santi
No lugar onde eu moro, mora um velhinho. Um velhinho de outro tempo, ele é como meu avô seria se ainda estivesse vivo. Os avós de hoje são moderninhos, quase não usam camisa de botão ou calça social. Este é todo vestido de vovô. Usa chapéu de vovô e chinelo trançado de vovô. Tem hábitos de vovô. Os vovôs e as vovós de hoje parecem titios, com sua bermuda de jeans, camiseta e chinelo havaianas. Os vovôs e vovós de hoje são descolados.
Mas ninguém contou isso pro vovô que mora aqui. Ou se contaram ele fez ouvidos moucos. Todos os dias ele passa feliz da vida, com seu traje a rigor. É porque ele tem uns costumes, uns rituais que são próprios dos vovôs, mas dos vovôs de outros tempos. Ele tem um carro, mas nunca o vejo dirigir. Ele só faz de conta que o dirige. Entra no carro, mas deixa o chinelo do lado de fora. Liga o motor. Ocupa-se de saber que o carro funciona, que o motor liga. Vai que numa dessas o vovô precisa resolver alguma coisa num lugar onde suas pernas não alcançam. Vovô é precavido.
O vovô daqui gosta de música. De dentro do seu carro, com um sorriso nostálgico, escuta Nelson Gonçalves. Quase ninguém mais escuta Nelson Gonçalves. Os outros vizinhos escutam umas outras coisas com o volume muito alto. Quem gosta de música barulhenta é um egoísta ao contrário. Mas eu sei que o vovô escuta Nelson Gonçalves porque chego disfarçadamente pertinho pra ouvir.
Imagino que vovô deva gostar de jogar dama ou xadrez. Talvez eu não saiba que ele costuma ir na Praça XV se encontrar com outros velhinhos que ignoram os apelos deste tempo. Não se importam de serem considerados anacrônicos, pelo contrário, esforçam-se para manter o elo que nos une com o passado.
Todo dia o vovozinho passa pela minha janela. Eu o vejo e fico feliz. O mundo fica mais bonito com sua presença e com a trilha sonora de uma voz do passado que eu ainda consigo ouvir.


5 comentários:
Oi Norma...esses vovôs são especiais...não deixam a nostalgia para tras, andam com ela, o tempo todo...gravata borboleta, guarda-chuva, terno de linho, chapéu, lenço e relógio de bolso...rs
Meu avô tinha um desses...
De inicio achei que você fosse falar de um asilo, em asilos encontramos tantos assim, cheios de histórias verdadeiras pra contar.
Valeu pela presença lá no Verseiro...parabéns pelo seu cantinho aqui...
Um abraço na alma...bom fim de semana...bjo
Que lindo, me deu uma saudade do meu avô, tão parecido com o vOvô descrito.
Bjosssss
André
Olá Norma, tenho visitado sua página com frequência. Esste texto do vovô está como os outros, agradável e nostálgico. Sou sua fã! Beijos
Obrigada Yang!!!!
Oiii Norma...passo pouco por aqui..deveria passar mais..
Esse seu vovô parece com meu avô..em todos os detalhes...um avô das antigas..
Muito bom!!
Bjss
Juliana
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