Morro de medo de escrever poemas. Nem tanto pela demonstração explícita do pouco conhecimento no assunto ou pelo fato de que muitas vezes me escapam coisas que possivelmente nem as desejasse públicas. Há na poesia livre um tanto de conteúdo latente que faria Freud se deliciar em teorias. Uma boa maneira de escapar disso é medir as palavras. Planejá-las uma a uma, colocando cimento vedante no meio. É importante atentar para que não escapem pensamentos que deixem suspeitas. Que provoquem dúvidas. A boa poesia é feita de métricas e nobres rimas que lhe darão ritmo. Todo este cuidado e suas neuroses serão devidamente protegidas.
Mas como ia dizendo, não me assusta me despir um pouco através das minhas palavras. Pelo contrário, às vezes é gostoso brincar de esconde-esconde, deixando o nariz à mostra. O que me apavora, apavora mesmo é que no meio disso tudo alguém resolva me chamar de poetisa. Eu não suportaria tal adjetivo. Explico, agradecendo aos céus por Freud não estar mais entre nós. Houve uma época em minha vida que eu frequentava uma Igreja. Tinha ali muitas poetisas, todas normalistas, alinhadas, cultas, senhoras que então eu chamava "docemente" de velhas corocas.
Além de corocas, elas tinham cabelo violeta. Não sei que tinta usavam, mas todas tinham cabelo violeta. Eu desconfiava que elas não eram deste mundo e que não poderiam fazer as mesmas coisas que eu fazia. Nem mesmo hoje consigo imaginá-las indo ao banheiro. Elas escreviam uns textos que liam no chá da tarde. O texto era cheio de flores e de rimas redondinhas. Eram palavras sérias e muitas vezes até Cristo cabia no meio. Eu tinha medo das poetisas e de seus poemas. Medo semelhante eu sentia do catecismo.
Cresci e lá pelas tantas começou a me cutucar uma vontade de brincar com as palavras. Desde sempre elas saem desconfiadas, olhando pros lados, receosas de se alinharem do mesmo jeito que as das senhorinhas. Fogem esparramadas da cor violeta, derrubando o chá sobre a mesa. Por isso tão distraídas, tão sem propósito e descabeladas. Por descuido, eu às vezes cometo alguns poemas, mas peço à deusa dos versos que isso jamais me renda o título de poetisa. Nem mesmo quando eu for uma velha coroca.


1 comentários:
Normíssima, não sabia que você tinha medo de poetisas, mas, agora que as definiu, acho que tenho medo delas também. Quanto a expor-se na poesia, creio que sempre se faz um pouco disso quando se escreve, não importa o gênero, não é?
Continue escrevendo e eu prometo não chamá-la de poetisa nunca. Hhahahahaha...
Bjos, moça!
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