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Ai! se eu te visse em languidez sublime, Na face as rosas virginais do pejo, Trêmula a fala, a protestar baixinho… Vermelha a boca, soluçando um beijo!…
Amor e Medo
de Casimiro de Abreu

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Fim de festa

Norma Santi

Foi no ano de 2012. Ou melhor, a dois minutos de 2012 quando os ponteiros dos relógios do mundo interromperam suas engrenagens. As ampulhetas deitaram espalhando aleatoriamente suas areias. Sob frondosas sombras descansaram os relógios de sol. Os homens e mulheres pararam atônitos na soleira do novo ano. Acostumados com seus milênios e suas frações de segundo perderam o prumo. O tempo, finalmente livre de seus cronômetros, pode sentar junto com as crianças e desenhar lindas paisagens nas folhas dos calendários do ano que nunca chegaria a se cumprir.
Sabrina, a pequena fada, abandonou por sobre o gigantesco vale o condão que diferenciava a quarta parte de cada estação. O bobo da corte do relógio de Berna saiu dando piruetas, sem que olhares surpresos dessem por sua presença fora da casinha que tinha sido sua por décadas. Também liberto de suas cúbicas paredes revoou o cuco de asas abertas. Abandonou a cerca do poleiro o galo e dormiu despreocupado por toda a madrugada. Ao ver tudo numa nova ordem souberam os anjos que estava na hora de organizar a bagunça da longa festa.
Começaram pelas águas salgadas. Foi preciso sacudi-las para que limpassem a sujeira acumulada em suas areias. Recolheram todos os brinquedinhos construídos pelos humanos ao longo dos séculos. Soltaram por sobre o universo os carros, as casas e as pontes que foram absorvidas pelos famintos anéis de Saturno. Costuraram os cenários que separavam o dia da noite e formaram a terceira luz. O amor proibido entre as sereias e lobos pode ser vivido quando a água salgada as trouxe aos pés da árvore mãe, a rainha da densa floresta. As águas de cima e as debaixo uniram-se num arco-íris e, como madrinhas, celebraram a nova união.
As estrelas que acompanhavam tudo de longe esticaram um longo sorriso e executaram as brincadeiras que ensinaram às crianças no início dos tempos. Correram por cima do véu do firmamento e rodaram na ciranda até que, cansadas, dormiram e formaram novas conjunções. Emprestou o sol seu calor à fria e mutante lua e seu eclipse magenta espalhou uma névoa tépida sobre a Terra.
E todos os seres vivos esqueceram suas classificações e frutificaram e se multiplicaram gerando espécies multicoloridas. Absorveu Deus o ar que emprestara a cada homem e cada mulher. Libertou-os da longa tarefa de lavrar a terra e domesticar os animais. Nus, puderam então deitar sobre o nada que eram e tiveram sonhos insólitos, sem que de mais nada tivessem que se envergonhar. Apagou-lhes Deus da memória as atrocidades cometidas e os livrou da lembrança de sua capacidade de destruir e escravizar.
Percebeu Deus que tudo estava bom e repousou. Seus ouvidos captaram o som do cosmos arrastando suas torrentes musicais pelas planícies em torno dos quatro rios do Éden. Esticou os longos braços e acariciou a árvore da vida que, agradecida, o presenteou com um delicioso fruto. Num novo lampejo de esperança sacudiu o pó de terra das mãos e, como se fosse por descuido, deixou cair a semente de uma nova criação.

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